quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Guerra - Cecília Meireles

                                              Guerra


Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível, 
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...- e alcançariam as estrelas.

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e este mar desvairado de incêndios e náufragos, 
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando,apenas,sobre fotografias,
-tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.

                                                                                               Cecília Meireles
                                                                                               (disponível aqui)

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